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Esta é a história do Miguel

  • Foto do escritor: projetonaomecalo
    projetonaomecalo
  • 14 de out. de 2018
  • 3 min de leitura


Já nos primeiros anos de escola, o Miguel apercebeu-se que não se integrava bem no bando dos rapazes da turma. Ele não gostava nem tinha jeito para jogar à bola como os outros. Ele preferia outro tipo de brincadeiras, entre as quais brincar às Navegantes da Lua com as meninas. E ele não via mal nisso. Não via até que os risos e dedos apontados começaram a marcar presença assídua.


A partir do 5º ano, os episódios de bullying verbal começaram a multiplicar-se. Nas aulas de ginástica, ele chamava à atenção por ter uma flexibilidade fora do normal para um rapaz. O Miguel lembra-se exatamente do momento em que a professora comentou inocentemente com a turma que ele tinha uma “elasticidade feminina”. Nesse momento, ele teve plena certeza de que seria ainda mais gozado. Foi o que aconteceu. Ainda hoje, o Miguel se recorda vivamente do som daqueles risos recriminadores e das agressões verbais gratuitas que tinha medo de ouvir ao dobrar cada esquina do pavilhão da escola. O som do toque da campainha que anunciava o intervalo não lhe trazia tranquilidade. Ao invés, despertava medo e ansiedade.


À medida que os anos letivos se sucederam, as agressões foram-se tornando parte da rotina. Os colegas divertiam-se a gozar com o Miguel porque ele tinha “tiques”, porque ele falava de uma maneira diferente ou porque tinha hábitos e interesses diferentes. Somaram-se insultos como PANELEIRO, larilas, gay, menina e congéneres.


O Miguel não se esqueceu daquela vez, no intervalo, em que um professor o fez esticar o braço que estava dobrado para cima, enquanto gesticulava e falava com uma amiga, dizendo que “aquele tipo de tiques não lhe ficava bem”.


Também não se esqueceu daquela vez em que uns colegas entraram na sua conta do jogo online que todos os alunos da turma jogavam e alteraram todos os dados da sua conta para GAY. Ele quer contar-nos que chorou muitíssimo, compulsivamente, quando chegou a casa, abriu o computador e se deparou com aquele cenário.


Também não se esqueceu daquela vez, no 9º ano, em que um colega simplesmente chegou ao pé dele, à porta da sala de aula, e lhe disse na cara, alto e bom som, “tu és completamente nojento”.


O Miguel lidou com tudo isto esforçando-se muitíssimo nos seus estudos. O seu refúgio era pensar que no próximo teste ia ter melhor nota que os seus agressores. Hoje, o Miguel tem um mestrado, teve um percurso académico pautado por muito sucesso e organiza projetos de sensibilização para causas como esta. Ele finalmente conseguiu entender-se a si próprio e vive confortavelmente com a pessoa que ele é. Entendeu que “gay” e “menina” nunca deviam ser usados como insulto. Aprendeu a lutar pelo que acredita e a respeitar-se como GUERREIRO por isso.



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Não conseguimos ver os olhos do Miguel nesta fotografia. Não lhe vemos os olhos porque o Miguel podia ser qualquer um de nós, ou um amigo nosso, o nosso filho/irmão/pai, o nosso colega de trabalho que cumprimentamos todos os dias, etc.


Se és vítima de bullying ou se tens conhecimento de alguém que esteja a passar por essa situação, queremos dizer-te que há coisas que podes fazer para combater este flagelo social. Informa-te em http://www.apavparajovens.pt/pt/go/o-que-fazer2 e não deixes de fazer ouvir a tua voz.


O Projeto NÃO ME CALO quer dar-te os parabéns, Miguel, pela coragem que tiveste ao partilhar a tua história, e por nos ajudares a combater o bullying. Muito obrigado! Não baixamos os braços, estamos a torcer por ti, estamos a torcer por todos.


Comentários


No dia 20 de outubro assinala-se o Dia Mundial do Combate ao Bullying. “A data é um alerta internacional para o problema do bullying com que muitos jovens vivem. Segundo a UNICEF, uma em cada três crianças do mundo, entre os 13 e os 15 anos, é vítima de bullying na escola regularmente.”

© 2018 por NÃO ME CALO.

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