Esta é a história da Carolina (nome fictício)
- projetonaomecalo
- 14 de out. de 2018
- 3 min de leitura

O primeiro episódio de bullying de que a Carolina tem memória passou-se no 3º ano do Ensino Básico. A escola tinha organizado uma festa de Carnaval e ela foi vestida de princesa da Idade Média. Nessa festa, uma colega da Carolina aproximou-se dela, insultou-a durante vários minutos e rasgou o véu do seu disfarce. A partir desse dia, a Carolina passou a ir para a escola com medo todos os dias. Medo da sua agressora, medo que não houvesse ninguém por perto para a auxiliar caso fosse atacada.
Quando ingressou no 5º ano de escolaridade, a Carolina teve de lidar com ainda mais agressores. Um grupo de alunas do 9º ano decidiu infernizar-lhe a vida durante esse ano letivo: cuspiam-lhe em cima, empurravam-na de escadas e gritavam ofensas como “A tua mãe tem vergonha da filha que tem”. A Carolina, bem mais nova que as suas agressoras, sentia-se inútil e a sua autoestima era praticamente inexistente.
No 8º ano, o bullying intensificou-se uma vez mais. Com apenas 13 anos, a Carolina viveu momentos insuportáveis por ter de ouvir diariamente de um colega de turma ofensas como “Gorda de m*rda, o que estás aqui a fazer?”, “Sai daqui, sua porca, metes nojo” ou “Por que raio não te MATAS?”. Este agressor fazia também questão de se sentar ao lado dela no refeitório e soltar gargalhadas sempre que ela levava uma colher de sopa à boca ou trincava uma maçã. A já longa e péssima relação que a Carolina tem com a comida iniciou-se precisamente aí. Se começou por comer às escondidas na casa de banho, acabou o ano com menos vinte quilos e a ingerir apenas uns míseros alimentos ao jantar.
A Carolina nunca conseguiu ultrapassar estas situações e, por mais psicoterapia que faça, medicamentos que tome, conversas que tenha, ou mesmo que o seu lado racional lhe “explique” que hoje tem 21 anos, é “crescida” e já muita coisa se passou desde então... é-lhe inevitável recordar o passado, o presente e quiçá o futuro. Isto porque, naqueles que eram “pequenos agressores”, ela via e ainda vê aquele que foi o seu maior agressor: o seu pai.
A Carolina quer contar-nos que ainda não lida bem com a sua imagem, a sua personalidade, as suas relações interpessoais, a sua falta de motivação para atingir determinados objetivos, a sua ansiedade e outros tantos distúrbios psicológicos que possui. O método a que recorreu para aliviar a sua dor foi a automutilação, chegando a considerar as lâminas as suas melhores amigas porque “me compreendem, até quando não falo”.
Hoje, a Carolina é uma jovem LICENCIADA, criativa e muito dedicada à profissão que escolheu. Ela luta todos os dias por um futuro profissional risonho na sua área e esforça-se por cuidar ao máximo da sua saúde mental. A Carolina mostrou-nos o quanto é heroína quando escolheu não se calar, por ela e por todas as pessoas que se calaram durante tanto tempo.
------
Não conseguimos ver os olhos da pessoa representada nesta fotografia. Ela não é Carolina mas podia muito bem ser. Não lhe vemos os olhos porque a Carolina podia ser qualquer um de nós, ou uma amiga nossa, a nossa filha/irmã/mãe, a nossa colega de trabalho que cumprimentamos todos os dias, etc.
Se és vítima de bullying ou se tens conhecimento de alguém que esteja a passar por essa situação, queremos dizer-te que há coisas que podes fazer para combater este flagelo social. Informa-te em http://www.apavparajovens.pt/pt/go/o-que-fazer2 e não deixes de fazer ouvir a tua voz.
O Projeto NÃO ME CALO quer dar-te os parabéns, Carolina, pela coragem que tiveste ao partilhar a tua história, e por nos ajudares a combater o bullying. Muito obrigado! Não baixamos os braços, estamos a torcer por ti, estamos a torcer por todos.



Comentários