Esta é a história do André
- projetonaomecalo
- 14 de out. de 2018
- 3 min de leitura
Atualizado: 21 de out. de 2018

Desde muito cedo que o André se sentiu uma criança diferente da norma. Nasceu e cresceu numa pequena cidade no interior do Brasil onde o preconceito era a regra e não havia espaço para a diferença.
Um menino que era pejorativamente apelidado por todos, incluindo familiares e colegas, de EFEMINADO estava, pois, vaticinado a uma infância marcada pela imposição de moldes que ele não entendia e pela proibição de comportamentos que lhe eram naturais. Com efeito, mesmo contra a sua vontade, o André foi obrigado a jogar futebol com os outros meninos da cidade duas vezes por semana, porque esse era um comportamento que os homens deveriam exibir. Por estímulo paternal, ele era também encorajado a participar em reuniões de homens onde se reforçavam positivamente atitudes tipicamente masculinas. Nelas, incitava-se a violência em detrimento do afeto e da aceitação da diferença. O André recorda-se de episódios em que era forçado a assistir a pornografia heterossexual, mesmo antes de ele ter completado 10 anos de idade.
Com 10 anos, ele recebeu o seu primeiro exemplar da revista “Playboy”. Apesar de não ter gostado nada do presente nem do que ele representava, o André sentiu-se na obrigação de demonstrar apreço pelo conteúdo do mesmo, pois essa era a conduta que lhe era imposta. Assim sendo, ele decidiu pendurar duas páginas da revista na porta do seu quarto, para que todos pudessem ver o quão masculino ele era. Esta trilha de autoengano, traçada pela normatividade que lhe era imposta, perpetuou-se por vários anos, anos esses que foram marcados por uma sensação de invalidez da própria existência e preenchidos por futebol, consumo de revistas heteroeróticas e violência.
De tanto ser vítima, o André quer contar-nos que começou, também ele, a ser agressor. Tornou-se uma criança que reforçava o mesmo discurso que o aprisionava. Chamou vários colegas pelas mesmos injúrias com que ele próprio já tinha sido torturado.
Aos 14 anos, mudou-se para uma cidade maior e começou a conhecer um mundo menos conservador. Chegou como agressor, tentando pertencer à regra, mas, a pouco e pouco, foi exposto a uma realidade mais plural, que desafiou o seu aprisionamento. Foi aí que ele realmente se apercebeu que sofria por tentar ser aquilo que não era. E sofria por fazer os outros sofrer.
Hoje, graças a vários anos de terapia e à construção de uma boa rede de suporte social, o André conseguiu recuperar várias partes da sua personalidade que tinham sido encarceradas. Aprendeu a aceitar-se como ele é e, com isso, conseguiu derrubar a insegurança e trazer de volta a espontaneidade. Ele recorda carinhosamente uma frase que ouviu da sua terapeuta: “sofremos mais por tentar ser o que não somos do que sofremos por ser aquilo que somos”. Graças a esse lema, o André pôde voltar a ser ESPONTÂNEO. Agora, ele orgulha-se de ser efeminado. Ele já não sofre e já não faz sofrer.
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Não conseguimos ver os olhos da pessoa representada nesta fotografia. Ela não é o André mas podia muito bem ser. Não lhe vemos os olhos porque o André podia ser qualquer um de nós, ou um amigo nosso, o nosso filho/irmão/pai, o nossa colega de trabalho que cumprimentamos todos os dias, etc.
Se és vítima de bullying ou se tens conhecimento de alguém que esteja a passar por essa situação, queremos dizer-te que há coisas que podes fazer para combater este flagelo social. Informa-te em http://www.apavparajovens.pt/pt/go/o-que-fazer2 e não deixes de fazer ouvir a tua voz.
O Projeto NÃO ME CALO quer dar-te os parabéns, André, pela coragem que tiveste ao partilhar a tua história, e por nos ajudares a combater o bullying. Muito obrigado! Não baixamos os braços, estamos a torcer por ti, estamos a torcer por todos.



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