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Esta é a história do João

  • Foto do escritor: projetonaomecalo
    projetonaomecalo
  • 14 de out. de 2018
  • 2 min de leitura


Para o João, a palavra gay nunca foi uma ofensa. Habituou-se a ouvi-la desde tenra idade, aquela em que ainda não é suposto ter-se contacto com a maldade das pessoas. Encarava esta palavra pacificamente porque a sua mãe o educou bem. Contudo, os colegas e conterrâneos do João tentavam rebaixá-lo repetidamente com injúrias como paneleiro, bicha, MARICAS ou mariconço.


Não foram raros os casos de assédio verbal, de empurrões nos intervalos e de material escolar roubado ou danificado. Também não foram raras as vezes em que o João chegava a casa e, por vergonha ou receio de represálias, se calava e fingia que estava tudo bem.


Mais grave ainda, aquele ambiente de opressão e ódio parecia ser completamente aceite por alguns professores e funcionários da sua escola, no Sardoal. Virava-se a cara e fechava-se um olho “porque era filho deste, filho daquela”. Perpetuava-se, assim, a desculpabilização e normalização daquele tipo de comportamentos ofensivos. Atualmente, muitos desses professores e funcionários ainda trabalham na escola antiga do João, mas ele tem esperança de que ela agora seja habitada por uma geração de alunos muito diferente daquela com a qual ele se cruzou na época.


A exposição a este tipo de ódio e maldade nos seus anos formativos mais importantes explica muitas das complicações que o João transportou para a vida adulta. Ele era um jovem altamente ansioso e dependente das expetativas dos outros; era acanhado, envergonhado e calado. Era-o porque o ambiente a que esteve exposto o ensinou a ser desconfiado, a procurar a maldade em cada gesto.


Hoje, o João conseguiu ver-se livre desses complexos e dessas companhias. Deixou florescer uma pessoa que ele acredita que sempre foi: aberta, dinâmica, interessada, (demasiado) faladora e que aprende, um pouco todos os dias, a ver a bondade antes da maldade.


Durante muito tempo, o João aceitou a negatividade que vinha daquelas ofensas. A superação desse ódio, que ele acredita ser fruto da ignorância típica de quem não teve uma boa educação, vem com o ignorar ou dar a cara por isso. Quando se aceita a ofensa com um sorriso e só se devolve educação e postura desarma-se o agressor: E DAÍ? Vem daí.



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Não conseguimos ver os olhos do João nesta fotografia. Não lhe vemos os olhos porque o João podia ser qualquer um de nós, ou um amigo nosso, o nosso filho/irmão/pai, o nosso colega de trabalho que cumprimentamos todos os dias, etc.


Se és vítima de bullying ou se tens conhecimento de alguém que esteja a passar por essa situação, queremos dizer-te que há coisas que podes fazer para combater este flagelo social. Informa-te em http://www.apavparajovens.pt/pt/go/o-que-fazer2 e não deixes de fazer ouvir a tua voz.


O Projeto NÃO ME CALO quer dar-te os parabéns, João, pela coragem que tiveste ao partilhar a tua história, e por nos ajudares a combater o bullying. Muito obrigado! Não baixamos os braços, estamos a torcer por ti, estamos a torcer por todos.


Comentários


No dia 20 de outubro assinala-se o Dia Mundial do Combate ao Bullying. “A data é um alerta internacional para o problema do bullying com que muitos jovens vivem. Segundo a UNICEF, uma em cada três crianças do mundo, entre os 13 e os 15 anos, é vítima de bullying na escola regularmente.”

© 2018 por NÃO ME CALO.

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